Família

Quatro irmãos, três casas: a adoção que reuniu as famílias

RRedação · 11/10/20266 min de leitura
Editorial

Em 13 de maio de 2016, três casais de Brasília foram buscar quatro irmãos que estavam em um abrigo em Minas Gerais. A autorização de guarda provisória permitia que as crianças saíssem dali para três casas diferentes. O desafio não terminava na documentação: os adultos queriam que a mudança preservasse a relação entre os irmãos. Nenhum dos casais tinha, até então, uma amizade anterior com os outros dois.

A aproximação aconteceu em um grupo de apoio à adoção da capital federal. Foi ali que começaram a discutir o que seria necessário para acolher aquelas crianças. Não bastava preparar quartos e assumir responsabilidades dentro de cada casa. Era preciso combinar uma convivência que atravessasse as três famílias. Em maio de 2023, quando a reportagem voltou à história, o arranjo já tinha sete anos de encontros, festas e decisões compartilhadas. Um dos casais recebeu a irmã mais velha e o irmão mais novo.

Na época da chegada, ela tinha nove anos e ele estava perto dos três. Os adultos precisaram aprender a cuidar de dois filhos em momentos bastante diferentes da infância. A mãe contou que o reconhecimento entre eles aconteceu aos poucos. A adaptação envolveu conhecer as crianças e permitir que elas também conhecessem os novos pais, num movimento que ela descreveu como uma conquista de ambos os lados. A decisão de adotar já vinha de uma experiência anterior dessa mulher como psicóloga voluntária no grupo de apoio. O contato com outras famílias ajudou a transformar uma possibilidade em projeto de vida.

Mais tarde, o casal teve uma filha biológica. A casa mudou de composição novamente, sem desfazer o compromisso assumido com os irmãos que viviam nas outras duas famílias. Antes da guarda, a apresentação dos futuros pais às crianças foi feita por vídeos. Eles mostravam a casa e falavam sobre a própria maneira de viver. O cuidado, segundo uma das mães, era não produzir expectativas excessivas. Depois houve autorização para enviar presentes. A reportagem registra cerca de um mês de preparação e ansiedade antes do encontro presencial que levou os quatro irmãos para as novas casas.

Outro casal recebeu uma menina de sete anos. Sete anos depois, ela tinha 14. Nessa família também havia um filho biológico, dois anos mais novo. Os pais disseram que a relação com a filha foi ganhando confiança, respeito e carinho gradualmente. O pai ressaltou que a preparação dos adultos precisava incluir uma compreensão realista da maternidade e da paternidade. O grupo de apoio, para ele, ajudou a lidar com responsabilidades que continuavam depois da chegada.

A terceira família acolheu a outra irmã. A mãe, professora, tinha uma relação próxima com os próprios irmãos e queria que a filha mantivesse essa possibilidade. A menina também encontrou um irmão adolescente dentro de casa. A convivência com ele era uma novidade. Aos poucos, segundo a mãe, foi compreendendo que tinha um lugar naquela casa e que não ficaria novamente sozinha. Uma passagem narrada pela professora concentra essa transformação. A menina teve gripe e recebeu cuidados. Durante esse período, contou à mãe que já havia adoecido outras vezes, mas não tinha vivido daquela maneira a experiência de estar doente com alguém cuidando dela.

O que ficou registrado foi o reconhecimento do cuidado pela própria criança, durante uma situação doméstica comum. Fora das casas, os adultos organizaram almoços, festas e encontros de fim de semana. Também passaram a antecipar a celebração do Natal para reunir os irmãos. Quando a matéria foi publicada, já tinham feito sete dessas comemorações. A proximidade não se restringiu às crianças: uma das mães passou a considerar as outras duas como irmãs. O acordo que começara em torno da adoção criou vínculos entre pessoas que antes não se conheciam. A continuidade desse compromisso foi testada por uma mudança.

A mãe que acolhera duas das crianças precisou ir para Uberlândia após o adoecimento do pai, que morreu pouco antes da reportagem. A decisão envolveu conversas com os outros adultos e com os filhos. As demais famílias apoiaram a mudança e passaram a fazer visitas frequentes a Minas Gerais. A distância entre cidades alterou a rotina, mas não interrompeu os encontros. O trabalho do grupo de apoio também incluiu as crianças. Uma psicóloga explicou à reportagem que era necessário ajudá-las a confiar no novo arranjo e a entender que continuariam ligadas.

Os adultos, por sua vez, precisavam estar preparados para decisões diárias. Segundo ela, o vínculo afetivo não surge obrigatoriamente pronto no primeiro encontro. Há famílias em que essa construção demora e exige acompanhamento. A solução dos três casais apareceu num contexto em que a adoção de grupos de irmãos era pouco frequente entre os perfis desejados pelos pretendentes. A reportagem ouviu uma pesquisadora de direito que lembrou a recomendação de manter irmãos juntos.

Ela considerou que, quando uma só família não consegue receber quatro crianças, um arranjo capaz de preservar os vínculos merece ser avaliado a partir das necessidades delas. A organização entre os casais também exigiu lidar com diferenças. Uma das mães reconheceu que os adultos tinham modos de vida distintos, embora compartilhassem valores que considerava essenciais. O vínculo não dependia de se tornarem pessoas iguais. A convivência se apoiava na disposição de incluir as outras famílias no percurso dos filhos e de manter decisões importantes em conversa.

A professora que acolheu uma das meninas também falou de aprendizado entre os adultos. Havia partilha de experiências e esforço para lidar com dificuldades. Não foram publicados detalhes de todos os problemas da família. O reconhecimento de que eles existiam, porém, fazia parte do depoimento. Sete anos de convivência continham responsabilidades que não podiam ser reduzidas ao entusiasmo do primeiro dia. Para os irmãos, a manutenção dos encontros vinha acompanhada de outra mudança: cada um aprendia a fazer parte de sua casa, sem perder acesso aos outros. As novas relações incluíam irmãos que já viviam nesses lares e uma criança que nasceu depois.

O arranjo ampliou a rede familiar ao longo do tempo, com as quatro crianças permanecendo ligadas entre si. Em 2023, os entrevistados fizeram questão de falar das dificuldades e do aprendizado. A história não se encerrou na data da guarda nem ficou limitada a um encontro feliz. Teve adolescentes crescendo, novos irmãos chegando, uma morte na família e uma mudança de cidade. O calendário das três casas continuou reservando espaço para os quatro irmãos.

Entre os compromissos registrados estava aquele Natal antecipado, organizado para que pudessem se encontrar outra vez.

Fontes consultadas

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