A filha que virou vizinha do pai e encontrou apoio no cuidado
EditorialDepois do diagnóstico de Alzheimer do pai, uma professora mudou-se para o mesmo prédio em Brasília. Tornar-se vizinha permitia acompanhar mais de perto a rotina dele. Em setembro de 2023, quando a reportagem contou a história, ela tinha 57 anos e o pai, 90. O diagnóstico havia sido feito em 2019, num período em que a mãe também adoecera. A mãe morreu no ano seguinte, em decorrência de um câncer.
As mudanças se sobrepuseram. Enquanto a família lidava com a doença e a perda da mãe, o pai apresentava desorganização e falhas de memória. O irmão da professora também se reorganizou para participar do cuidado. Apresenta uma família que precisou modificar sua organização e buscar acompanhamento profissional. A proximidade entre apartamentos trouxe oportunidades de convivência. A reportagem registra cumprimentos pela manhã, conversas durante refeições, televisão na sala e gestos como abraços e mãos tocadas. A filha disse que valorizava ainda poder receber o acolhimento do pai.
O cuidado não eliminara todos os movimentos anteriores da relação: mesmo precisando de ajuda, ele continuava sendo alguém em quem ela encontrava afeto. A família optou por contar a ele sobre o diagnóstico e procurava manter atividades de socialização. Havia profissionais acompanhando sua saúde. O centro da história era a organização da vida familiar diante de um quadro que exigia atenção permanente. Depois de dois anos nessa condição, a professora adoeceu. Ela contou que o começo havia sido desorganizado e que percebeu a necessidade de também receber cuidado. O encontro com um coletivo de cuidadores da capital foi uma mudança relevante.
Ali havia espaço para falar com pessoas que atravessavam dificuldades parecidas e para fazer atividades fora da rotina de assistência ao pai. A filha começou terapia, manteve o trabalho e buscou reservar tempo para atividade física e saúde mental. Sua avaliação era que, depois dessa reorganização, conseguia cuidar do pai e preservar uma vida própria. Não afirmou que a situação tivesse se tornado simples. O apoio ajudou a enfrentar o isolamento e a compreender que o cuidado também dependia das condições de quem o realizava.
Uma das fundadoras do coletivo era uma jornalista que cuidara da mãe por 14 anos após o diagnóstico de Alzheimer. Quando a mãe morreu, ela manteve o trabalho de apoio a outras famílias. A experiência pessoal virou participação em encontros, circulação de informações e cobrança de políticas públicas. Em 2023, o grupo já tinha produzido um guia de serviços para pessoas idosas com demência e cuidadores do Distrito Federal.
A jornalista descreveu uma coincidência de gerações difícil de acompanhar. Enquanto seu neto aprendia a falar, andar e comer, sua mãe perdia essas capacidades. Esse contraste, relatado por ela, marcava uma rotina com necessidades muito distintas. Registra o modo como a filha viveu mudanças simultâneas em sua família. No cuidado da mãe, encontrou recursos pequenos e particulares. Mostrava imagens pelo celular da cidade natal dela, na Bahia. Levava tecidos de texturas diferentes e alimentos com consistências variadas. Prestava atenção às cores da mesa e à maneira de servir.
O coletivo também organizava saraus, passeios e participação no Carnaval, além de atividades para dar visibilidade às demandas das famílias. A jornalista mencionou uma lei distrital voltada a pessoas com demência e cuidadores, ainda sem implementação no momento da entrevista. Havia uma audiência pública para cobrar providências. O apoio, portanto, não se limitava a uma conversa privada: alcançava serviços e responsabilidades públicas. Os profissionais ouvidos na reportagem reforçaram a importância de dividir tarefas e de acompanhar a própria saúde. Essas orientações apareciam ao lado de experiências concretas de sobrecarga. A professora de Brasília havia precisado reorganizar sua vida depois de adoecer.
A jornalista seguira apoiando outras famílias após a morte da mãe. As duas trajetórias mostravam como o cuidado podia produzir isolamento, mas também novos vínculos. No prédio de Brasília, a proximidade entre pai e filha continuava permitindo encontros ao longo do dia. Conserva uma imagem da convivência possível naquele momento: uma filha atenta aos gestos do pai, capaz de ajudá-lo e ainda reconhecer, no abraço recebido, uma forma de ser acolhida.
Fontes consultadas
Confira a origem e os créditos deste texto. A data da fonte é diferente da data de publicação no nosso site.
- Cuidadores de pacientes com Alzheimer precisam de atenção e proteção
Agência Brasil · Publicada em 2023-09-23T17:07:00-03:00 · Consultada em 2026-10-04T09:28:58.979374+00:00
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