O quarto já estava previsto antes da chegada pela adoção
EditorialO apartamento novo precisava ter um quarto para uma criança que ainda não havia chegado. Esse foi um dos critérios usados por duas mulheres ao escolher onde morar, segundo reportagem publicada em maio de 2024. A decisão de adotar já interferia nas escolhas da casa, mesmo antes da entrega dos documentos de habilitação. As duas estavam juntas havia 12 anos e queriam ser mães, mas não desejavam uma gestação.
Chegar a essa definição levou tempo. Uma delas era terapeuta, a outra empresária. Elas contaram que a pressão de familiares e do meio social colocava a maternidade biológica como caminho mais legítimo. Conversas e terapia ajudaram a distinguir o desejo de ter um filho da vontade de engravidar. Quando entenderam que podiam construir a família por adoção, passaram a organizar a vida considerando a presença futura de uma criança. No momento da entrevista, o projeto ainda estava em preparação. Elas pretendiam apresentar a documentação exigida e haviam definido um perfil de até cinco anos, sem preferência de gênero ou etnia.
Cogitavam, mais adiante, uma segunda adoção de uma criança acima dos sete anos. Nada disso era uma chegada confirmada: eram as escolhas e possibilidades relatadas naquele estágio. A preparação não ficou concentrada nos papéis. As duas se reconheceram como mulheres brancas e buscaram rodas de conversa sobre educação antirracista. A leitura dos dados do sistema de adoção, com a presença de muitas crianças negras, levou-as a pensar no que significaria formar uma família interracial. A criança ainda era desconhecida, mas o trabalho para recebê-la já exigia revisar referências e enfrentar questões que antes podiam parecer distantes.
Uma delas também criou um jogo destinado a futuros pais adotivos. A proposta era discutir tabus ligados à idade, ao gênero e à etnia das crianças. A reportagem situa essa atividade dentro do esforço de preparação. Não a apresenta como etapa formal do processo judicial nem como garantia de uma adoção bem-sucedida. Era uma maneira que a futura mãe encontrara para trabalhar perguntas recorrentes e estimular conversas. As mulheres tiveram apoio de um coletivo do Rio de Janeiro formado por famílias adotivas e outros voluntários.
Criado em agosto de 2017, o grupo oferecia informações sobre o processo e espaço para dividir preocupações. Atendia diferentes composições familiares. À época da matéria, realizava encontros em Vargem Pequena e preparava a abertura de outro ponto em Copacabana. As reuniões eram gratuitas e abertas a pessoas interessadas em adotar. Um coordenador ouvido pela reportagem ressaltou que a história de uma criança encaminhada à adoção pode incluir violência, negligência ou abandono.
A aproximação com outra família, portanto, precisa ser preparada para não produzir novos sofrimentos. Na avaliação dele, a troca entre adultos ajuda a deslocar a atenção do sonho dos pretendentes para o acolhimento de quem chegará. O quarto é parte do projeto; compreender o percurso da criança também é. A mesma reportagem acompanhou um casal de homens que havia encontrado dificuldades práticas para iniciar a habilitação. Um engenheiro de 27 anos e um assistente de contabilidade de 22 estavam juntos desde 2021 e tinham se casado no ano seguinte.
Tentaram começar o processo em 2022, mas a falta de conhecimento impediu o avanço. Com ajuda do coletivo, conseguiram formalizar a entrada em dezembro de 2023. Na semana da entrevista, em maio de 2024, eles haviam recebido aprovação do Ministério Público e aguardavam a etapa seguinte, dependente do juiz. Ambos já desejavam a paternidade antes de se conhecer. Pensaram em reprodução assistida e depois escolheram a adoção. Ainda não tinham preferência definida quanto ao sexo da criança e consideravam acolher até dois irmãos. No Natal anterior, o casal apresentou o projeto às duas famílias. Um deles contou que a notícia foi recebida com entusiasmo e que os parentes passaram a acompanhar o processo.
O apoio familiar não eliminou perguntas preconceituosas de colegas. Depois do Dia das Mães, por exemplo, ouviram a dúvida sobre quem representaria uma figura materna para uma criança criada por dois homens. A pergunta antecipava um problema sobre filhos que ainda não haviam chegado. Um dos futuros pais observou que seu marido crescera sem conviver com o próprio pai, enquanto ele fora criado pelo pai sem a presença da mãe. As trajetórias pessoais mostravam que as relações familiares já eram diversas muito antes daquele projeto de adoção.
O casal defendia que acolhimento, diálogo e cuidado deveriam ocupar o centro da discussão. O levantamento citado na matéria ajuda a situar as duas experiências. Desde 2019, o sistema nacional registrara 1.353 adoções por casais homoafetivos até a consulta realizada em maio de 2024. Eram 6,35% do total naquele recorte. A quantidade anual havia passado de 143, em 2019, para 401, em 2023. Os encontros do coletivo também ajudavam a entender a burocracia.
O caso dos homens mostrava que desejar adotar e conseguir iniciar a habilitação eram movimentos diferentes. A primeira tentativa não avançara, apesar da intenção dos dois. A orientação recebida permitiu retomar o processo de maneira formal, com etapas que continuavam dependendo de avaliação e decisão das autoridades. Para as mulheres, o apoio incluía partilhar perguntas sobre o acolhimento antes da chegada. As mulheres ainda aguardavam as etapas de habilitação. O perfil escolhido e a preparação antirracista eram parte do projeto dos adultos.
A identidade e a história de quem poderia chegar ainda não eram conhecidas. Essa ausência não impedia providências concretas, mas mantinha a família numa fase de espera e aprendizado. A reportagem também explica que o processo de habilitação é o mesmo, com documentos, entrevistas e avaliação judicial, independentemente da orientação sexual dos candidatos. Nos casos narrados, o preparo doméstico e o apoio de outras famílias avançavam junto com as etapas formais. As mulheres ainda tinham documentos a entregar; os homens aguardavam nova decisão. O quarto previsto no apartamento continuava reservado a alguém que eles ainda não conheciam.
Fontes consultadas
Confira a origem e os créditos deste texto. A data da fonte é diferente da data de publicação no nosso site.
- Casais homoafetivos ainda enfrentam preconceitos para adotar crianças
Agência Brasil · Publicada em 2024-05-17T10:36:00-03:00 · Consultada em 2026-10-04T09:28:58.122615+00:00
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