Maternidade e Paternidade

Entre áudios e pipoca, um pai acompanha os filhos pelo celular

RRedação · 16/10/20264 min de leitura
Editorial

Ao lado do carrinho de pipoca, um pai de seis filhos ouvia mensagens pelo fone. Tirava o aparelho do ouvido para atender os clientes e voltava aos áudios com notícias da família. A cena foi registrada em Brasília numa reportagem de agosto de 2024. O pipoqueiro, de 58 anos, morava em São Sebastião e era potiguar. Os filhos haviam começado a sair de casa para casar ou mudar de cidade.

Uma mensagem avisando que ligariam depois da faculdade podia parecer pequena para quem olhasse de fora. Para o pai, qualquer notícia dos filhos era importante. Recebia mais mensagens que chamadas, mas dizia entender a rotina corrida deles. O telefone permitia que acompanhasse acontecimentos do dia enquanto trabalhava. Ele contou que já se preocupara mais com possíveis efeitos da tecnologia. Naquele momento, via o celular como fonte de tranquilidade para trabalhar e como forma de diminuir a saudade. A distância entre as casas não desaparecia.

O que mudava era a possibilidade de receber a voz de um filho entre os atendimentos, sem depender de um horário exclusivo para uma ligação. A reportagem também encontrou um agricultor e servidor público aposentado de 63 anos na área rural do Gama. Ele igualmente tinha seis filhos. Enquanto esperava o ônibus para voltar para casa, ficava atento ao aparelho, esperando alguma mensagem deles. Os mais velhos já estavam em áreas urbanas. Em casa viviam a esposa e o caçula, de 11 anos. Com o menino, o pai procurava manter brincadeiras na terra e com bola.

Sabia que ele também queria usar o telefone para jogar. Não apresentou a tela apenas como ameaça: gostava de receber mensagens do filho e de sentar ao lado dele para conversar sobre o que tinha visto. Essa convivência permitia acompanhar os interesses da criança em vez de deixar o aparelho como uma atividade completamente separada da relação familiar. Os dois homens estavam em pontos diferentes da paternidade. O pipoqueiro acompanhava filhos que já tinham saído de casa.

O agricultor ainda criava um menino, além de manter contato com os mais velhos. Em ambos os casos, o celular aparecia numa rotina de trabalho ou deslocamento. Não era uma tecnologia descrita em abstrato, mas um objeto usado para sustentar conversas dentro de famílias determinadas. Uma pesquisadora de comunicação ouvida pela reportagem explicou que adultos e filhos podem atribuir sentidos diferentes ao uso do telefone.

Os pais frequentemente ligam o aparelho à segurança; os mais jovens também o usam para circulação social e expressão de afeto. As mensagens em datas comemorativas foram mencionadas como exemplo de relações que passaram a ter uma dimensão pública nas redes. Os especialistas ressaltaram, porém, que o resultado depende das condutas das pessoas. Uma chamada pode aproximar quem está longe. Na mesma mesa, aparelhos usados por todos podem reduzir a conversa entre quem está fisicamente junto. O neurologista entrevistado chamou atenção para contato, diálogo e experiências fora das telas.

A reportagem apresenta essas observações como contexto para os usos domésticos, sem avaliar clinicamente os dois pais retratados. Uma psicóloga também destacou a necessidade de escutar as dúvidas e inseguranças de crianças e adolescentes. No caso do pai do Gama, o gesto relatado já tinha essa direção: sentar com o caçula e perguntar sobre o conteúdo visto. O registro se encerra com formas de presença que cabiam em circunstâncias diferentes. O agricultor procurava manter brincadeiras ao ar livre e conversa sobre a tela. O pipoqueiro recebia notícias durante o expediente, com o fone perto do ouvido.

Ao chegar um cliente, retirava o aparelho para atendê-lo. Entre uma venda e outra, havia a possibilidade de ouvir de novo a voz de alguém da família.

Fontes consultadas

Confira a origem e os créditos deste texto. A data da fonte é diferente da data de publicação no nosso site.

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