Após perder a filha, uma mãe criou uma rede para ouvir outras
EditorialPouco antes de morrer num acidente de helicóptero, em 2011, uma jovem ensinou a mãe a usar uma rede social. Quando o acidente aconteceu, a mãe publicou um pedido de orações. Entre as respostas começaram a chegar mensagens de mulheres que também haviam perdido filhos. O contato que nasceu naquele espaço virtual acabou dando origem a um grupo de acolhimento ao luto materno. A reportagem publicada em maio de 2025 entrevistou a fundadora da rede sobre esse percurso.
Antes do acidente, ela trabalhara por duas décadas como secretária de um consulado no Brasil. Depois da morte da filha, entrou no curso de psicologia. Queria compreender o sofrimento que conhecia na própria vida e nas conversas com outras mulheres. O estudo se tornou parte de uma mudança profissional voltada a essa experiência. No começo, as trocas eram feitas pela rede social. As mulheres compartilhavam mensagens de esperança e histórias de perda. A mãe percebeu que havia ali uma população com necessidades específicas, muitas vezes sem espaço de escuta na família, no trabalho ou nos serviços.
Ela contou que passou a pensar também nos efeitos sociais da perda, como afastamento do emprego e dificuldade para manter a rotina. Com a ajuda inicial de duas psicólogas, organizou grupos terapêuticos. Em 2025, mais de 20 profissionais participavam voluntariamente da rede. Havia encontros virtuais e presenciais com mães de diferentes regiões do país. A reportagem registra 14 anos de trabalho e o lançamento de um livro baseado em estudos e experiências do grupo. Não apresenta uma contagem individual de trajetórias concluídas nem uma promessa de resultado igual para todas. O nome escolhido para a iniciativa fazia referência à ausência de uma palavra de uso corrente para designar uma mãe que perdeu um filho.
Há termos para quem perde cônjuge ou pais, mas a fundadora chamava atenção para a dificuldade de nomear aquela condição. Para ela, o nome do grupo também expressava uma sensação de falta de lugar que aparecia nas conversas com mulheres enlutadas. Essa interpretação vinha da experiência da entrevistada e de seu trabalho. Pelo contrário, a fundadora repetiu que histórias semelhantes podem gerar percursos muito diferentes. Duas mortes ocorridas em circunstâncias parecidas não tornam idênticas as relações anteriores, as formas de lembrar ou as condições em que cada mulher tenta seguir vivendo.
O grupo começava o acolhimento por uma entrevista de triagem. Uma coordenadora recebia o contato e o encaminhava a uma psicóloga voluntária. A conversa inicial buscava compreender como a mãe estava naquele momento. Em situações que exigiam mais cuidado, podiam ser oferecidas algumas sessões individuais antes da participação coletiva. A entrada no grupo não era tratada como obrigação imediata. Nos encontros online, uma participante podia manter a câmera desligada.
Também podia permanecer em silêncio e ouvir. A rede trabalhava com grupos abertos: as mães tinham liberdade para entrar, sair e voltar. A fundadora apresentou essa flexibilidade como forma de respeitar diferentes momentos. Na época da entrevista, os encontros virtuais aconteciam às quartas e sextas-feiras. Aos sábados havia uma reunião presencial no consultório. O importante para a história é o fato de que a iniciativa encontrou meios para reunir mulheres de outras cidades e, ao mesmo tempo, manter um espaço físico de convivência.
O Dia das Mães exigia uma atenção particular. As psicólogas se revezavam em plantão para atender individualmente quem precisasse. A data podia tornar mais exposta a ausência do filho, inclusive para mulheres que ainda tinham outros filhos vivos. A fundadora observou que a perda não desfaz a maternidade. O calendário comercial e familiar podia lembrar simultaneamente o vínculo e a ausência. Na entrevista, ela falou também sobre o afastamento de outras pessoas. Algumas não sabem o que dizer; outras se sentem desconfortáveis diante da perda e deixam de procurar a mãe. A rede não pretendia preencher o lugar do filho.
Criava uma possibilidade de contato em que a mulher pudesse mencionar a ausência, ficar calada ou chorar sem precisar atender à expectativa de que tudo já estivesse resolvido. O livro publicado naquele período nasceu de uma pesquisa de mestrado. A fundadora transcreveu alguns encontros e examinou palavras recorrentes, com cuidado para não transformá-las numa lista fixa de características do luto. Depois da graduação em psicologia, também fizera formação numa abordagem voltada à experiência do sofrimento.
Sua trajetória de estudo aparece na matéria ligada à necessidade de ouvir as diferenças entre as mães. A entrevistada rejeitou a ideia de apresentar a perda como algo simplesmente superado. Preferia falar em reorganização da vida e em possibilidade de reencontrar alegria sem eliminar a ausência. Ao tratar da convivência com familiares e amigos, a responsável valorizou a presença: estar junto, compartilhar uma refeição, deixar que a pessoa fale se desejar.
A recomendação se ligava ao problema descrito desde o início, o isolamento. Nos grupos, a presença assumia outras formas: uma câmera fechada durante a reunião, uma escuta silenciosa ou uma conversa individual antes de encontrar as demais participantes. Em 2011, o primeiro movimento foi publicar uma mensagem numa ferramenta que a filha havia ensinado a usar. Em 2025, a rede já organizava voluntárias, triagens e encontros em diferentes formatos. O trabalho seguia aberto às mulheres que buscavam apoio. Depois do contato inicial, uma coordenadora encaminhava cada mãe a uma profissional; a primeira tarefa era ouvir como ela estava, antes de decidir o próximo passo.
O plantão daquela data era organizado por revezamento entre as voluntárias. A existência dos encontros coletivos não eliminava a possibilidade de atendimento individual. A rede conservava maneiras diferentes de acolher quem procurava ajuda, a partir da conversa inicial. Essa organização vinha de um trabalho que começara com mensagens entre mulheres, ganhou formação profissional e continuava reunindo pessoas de várias regiões. A fundadora seguia estudando as experiências que ouvia, sem tratá-las como um percurso único. Algumas mulheres podiam falar na reunião; outras apenas acompanhar. O silêncio também cabia no espaço criado para que encontrassem companhia.
Fontes consultadas
Confira a origem e os créditos deste texto. A data da fonte é diferente da data de publicação no nosso site.
- Grupos terapêuticos ajudam mães a lidar com "dor inominável" do luto
Agência Brasil · Publicada em 2025-05-10T14:36:00-03:00 · Consultada em 2026-10-04T09:28:59.780344+00:00
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