Trabalho doméstico: da infância sem salário à luta por direitos
EditorialEm uma casa de Vila Aliança, na zona oeste do Rio de Janeiro, a porta permanecia aberta. A reportagem de junho de 2025 encontrou ali uma liderança comunitária de 92 anos procurada por sua atuação social, política e religiosa. A descrição da casa incluía pipas, linhas e a circulação de crianças. O endereço também guardava uma longa história de organização de trabalhadoras domésticas.
Essa trajetória começara em Manhumirim, na Zona da Mata mineira. Aos nove anos, a menina passou a cuidar de crianças e a fazer serviços em uma casa. A mãe, que também trabalhava como doméstica, condicionara sua permanência à possibilidade de estudar. A filha foi a primeira pessoa da família a frequentar uma escola, segundo o relato publicado.
Aos 11 anos, enfrentou atrasos no pagamento. Depois de três meses sem receber, saiu do trabalho. A entrevistada contou que comprou materiais escolares em uma loja e lançou a despesa na conta dos empregadores, justificando o gesto com o dinheiro que lhe deviam. O episódio integra uma memória relatada por ela; a reportagem não apresenta documentos daquela cobrança.
O recorte permite preservar o significado que atribuiu ao acontecimento sem transformá-lo em cena inventada. Não há descrição autorizada do balcão da loja, do rosto do empregador ou do instante da compra. Há uma trabalhadora ainda criança que, décadas depois, reconheceu naquele gesto uma primeira reivindicação por remuneração.
A mudança para o Rio ocorreu aos 15 anos, acompanhando a mãe e um irmão. Na vida adulta, trabalhou por quatro décadas como lavadeira e passadeira. A militância que a tornou referência cresceu em Vila Aliança, depois de remoções entre bairros. A comunidade e grupos ligados à Igreja Católica ofereceram os espaços iniciais de organização.
Na década de 1970, sua participação em uma pastoral de trabalhadores evidenciou uma distância. Discussões sobre negociação coletiva e data-base não respondiam diretamente à experiência das domésticas. Ela chamou outras mulheres para organizar um grupo próprio. Em 1976, realizaram um primeiro encontro na comunidade, descrito na entrevista como uma roda de troca de experiências sobre o trabalho.
Foi nesse processo, segundo seu relato, que percebeu a possibilidade de ter a carteira assinada. Pediu o registro a uma família para a qual trabalhava havia quatro anos. A formalização passou a contar para sua aposentadoria. A fonte registra a conquista individual dentro da organização coletiva, sem afirmar que todas as mulheres do grupo foram registradas naquele momento.
Nos anos seguintes, surgiram grupos em paróquias da zona oeste. A mobilização se aproximou de uma associação de trabalhadoras domésticas já existente. Em 1982, a entrevistada foi eleita presidenta dessa entidade. Mais tarde, participou da transformação da organização em sindicato e da articulação com outros movimentos de trabalhadores.
A Constituinte de 1988 aparece como uma etapa particularmente exigente. Ela trabalhava no Leblon e relatou viagens noturnas de ônibus para Brasília, onde conversava com parlamentares, voltando depois para o trabalho. A matéria associa aquela mobilização à conquista de direitos constitucionais, como férias remuneradas, décimo terceiro salário e aviso prévio.
Em 2025, a lei complementar que regulamentou direitos após a emenda constitucional de 2013 completava dez anos. A entrevistada reconhecia avanços e cobrava proteção para diaristas, combate à informalidade e fiscalização do trabalho infantil e de condições análogas à escravidão. A reportagem também lembrava que o serviço doméstico remunerado é proibido para menores de 18 anos.
Os estudos acompanharam a vida adulta. Ela voltou a estudar depois dos 40 anos, cursou pedagogia e serviço social e concluiu este último percurso aos 83. O texto não especifica instituições nem autoriza atribuir uma única data de formatura às duas graduações. A informação suficiente é a continuidade de sua escolarização muito além da infância interrompida pelo trabalho.
A organização das domésticas também precisou criar alianças. A entrevistada descreveu a aproximação com o movimento feminista, com organizações negras e com sindicatos de outras categorias. Em sua avaliação, as relações produziram aprendizado mútuo e ampliaram a capacidade de reivindicar. A matéria não apresenta essas alianças como uma linha sem conflitos: registra diferenças entre trabalhadoras e mulheres que ocupavam a posição de empregadoras.
Ao falar das redes de apoio, ela mencionou empregadoras que ajudaram a financiar e apoiar sua participação em atividades. O dado mostra que relações individuais podiam atravessar os mesmos espaços em que havia disputas por remuneração e registro. Não apaga a desigualdade do vínculo nem permite estender esse apoio a todas as famílias para as quais trabalhou.
A trajetória de direitos, na leitura da entrevistada, era feita de parcelas. A proteção previdenciária veio em uma etapa; a Constituição acrescentou garantias; a equiparação posterior e sua regulamentação abriram outra fase. Sua cobrança em 2025 se voltava justamente à distância entre conquista legal e experiência cotidiana. Conseguir uma norma não significava que cada trabalhadora já estivesse protegida na prática.
A reportagem apresentou números que sustentavam essa preocupação. Com base em dados de 2022, informou que o país tinha cerca de seis milhões de trabalhadores domésticos. Seis em cada dez eram mulheres negras. Apenas três em cada dez contribuíam para a previdência, e 24,7% tinham carteira assinada. São dados daquele período e do conjunto da categoria, não uma descrição de todos os participantes dos grupos organizados no bairro.
Essas proporções dão outra dimensão à memória de 1976, quando a trabalhadora descobriu o direito ao registro. Décadas depois, a formalização continuava restrita a uma parte minoritária da categoria. A comparação não mede diretamente o efeito de sua atuação, mas mostra por que o assunto permanecia presente na entrevista. A carteira era defendida como instrumento de proteção em uma ocupação historicamente pouco reconhecida.
A liderança também manifestou preocupação com jovens e outros trabalhadores que rejeitavam o vínculo formal. Sua posição partia da experiência de uma categoria que durante muito tempo buscou entrar em um sistema de direitos do qual ficara distante. A fala expressava uma defesa política, não uma pesquisa sobre as preferências de todas as novas gerações.
Na conversa publicada, sua vida pessoal não aparecia isolada dessa construção coletiva. A participação em encontros e viagens exigiu reorganizar responsabilidades e obter apoio dentro de casa. A reportagem registra esse processo, mas o eixo da história segue no trabalho: mulheres reunidas para reconhecer problemas comuns, procurar instrumentos legais e transformar uma associação em representação sindical.
A porta aberta da casa, observada pela reportagem aos 92 anos, fazia parte dessa atuação que permanecia. A liderança ainda coordenava uma pastoral e defendia a participação da juventude nos movimentos sociais. Depois de uma vida entre serviço doméstico, escola e organização, continuava recebendo pessoas em Vila Aliança e discutindo os direitos que ainda faltavam.
Fontes consultadas
Confira a origem e os créditos deste texto. A data da fonte é diferente da data de publicação no nosso site.
- Dona Zica, 92 anos: da infância como doméstica à liderança sindical
Agência Brasil · Publicada em 2025-06-29T16:10:00-03:00 · Consultada em 2026-10-04T09:28:11.423262+00:00
Denunciar este relato — entre para acompanhar sua denúncia.
Continue a conversa
Comentários passam por moderação. Respeite as pessoas e não publique dados que identifiquem terceiros.
Entre ou crie sua conta para comentar.
Ainda não há comentários publicados.