Bordadeiras do Jequitinhonha levam sua renda a um museu no Rio
EditorialO bordado que identifica o dono de uma roupa também pode pagar as despesas de uma família. Essa passagem, do uso doméstico para o trabalho organizado, aparece na reportagem sobre uma exposição de arte têxtil do Vale do Jequitinhonha, aberta no Rio de Janeiro em setembro de 2026. O que chegou ao museu foram tecidos de algodão, acabamentos feitos ponto a ponto e o trabalho de mulheres de duas cidades do interior de Minas Gerais.
Não se tratava apenas de pendurar peças bonitas numa parede. A pesquisa que deu origem à mostra ouviu 40 mulheres de Turmalina e Veredinha. As duas cidades ficam no Alto Jequitinhonha, região em que o tecido, o bordado e outros trabalhos manuais atravessam gerações. A reportagem registra uma atividade antiga, mas também uma transformação recente: mulheres que passaram a se organizar em associações e a reconhecer o ofício como fonte principal de renda.
Uma representante das artesãs descreveu à reportagem uma infância cercada por tecidos. Antes de bordar, ajudava a preparar o algodão que seria transformado em fio e depois em tecido. Nas peças mais grossas, a mãe fazia iniciais em ponto cruz para marcar a quem pertencia cada item. O detalhe é pequeno e concreto: a técnica servia para resolver uma necessidade da casa, sem deixar de transmitir conhecimento entre mulheres da família.
A mesma artesã estava visitando o Rio pela primeira vez para apresentar a produção local. A notícia não informa quanto ela vendeu, onde se hospedou ou como foi sua chegada. O que documenta é a oportunidade de levar o trabalho para além da região em que ele costuma circular. É a primeira viagem mencionada naquela entrevista, associada a uma vitrine que podia ampliar a visibilidade das peças.
A pesquisa também chamou atenção para a diferença entre o reconhecimento do bordado e o da tecelagem. Embora os dois saberes convivam, havia mais bordadeiras do que tecelãs no território estudado. A historiadora responsável relacionou essa produção a mudanças econômicas na região, incluindo o avanço do plantio de eucalipto e a redução das áreas de algodão na agricultura familiar. Essa é a análise apresentada pela pesquisadora na fonte; não há ali um levantamento que permita atribuir toda mudança no trabalho a uma causa única.
A organização coletiva aparece em tarefas que raramente entram na fotografia de uma peça pronta. Comprar materiais, participar de eventos, planejar novas coleções, vender e buscar cursos passaram a ser decisões compartilhadas. Uma representante de outra associação afirmou que o artesanato era uma renda necessária para o sustento das famílias. A reportagem não fornece salários individuais nem promete que todas as participantes obtiveram o mesmo resultado.
Na exposição, o público podia conhecer e comprar os trabalhos. Essa possibilidade dava ao bordado duas funções no mesmo espaço: registrar um saber e colocar a produção em circulação. Para as mulheres citadas, a associação permitia enfrentar demandas que não terminavam na agulha e na linha. Havia compra de insumos, transporte, capacitação e procura por soluções para dificuldades comuns.
A mostra também discutia a maneira como o trabalho das mulheres é classificado. A pesquisadora afirmou que, sob um olhar patriarcal, o bordado costumava ser tratado como atividade doméstica. Com a formação das associações, ganhava reconhecimento como profissão e fonte de renda. O objeto podia continuar ligado ao uso da casa, mas a relação de trabalho passava a incluir organização, venda e uma remuneração importante para as famílias.
Esse movimento não apaga a continuidade entre aprender no cotidiano e produzir profissionalmente. Na infância descrita pela artesã, preparar o algodão era uma tarefa compartilhada com mãe, avós e tias. No presente da entrevista, participar da exposição envolvia outra rede de relações, com associações e um espaço cultural. O texto reúne os dois momentos porque ambos foram registrados na reportagem, sem supor que todas as mulheres tiveram a mesma infância ou a mesma mudança de renda.
A mostra foi anunciada como gratuita e com encerramento em 29 de novembro de 2026, no bairro do Catete. As datas dizem respeito à programação noticiada, não a uma garantia permanente de visitação. Para uma viagem, é necessário conferir o funcionamento atual do espaço. Na notícia, ficam as peças de cama, mesa e vestuário: algodão tecido manualmente, cores combinadas, crochê nas bordas e pontos que já saíram do interior mineiro para uma nova bancada de venda.
Fontes consultadas
Confira a origem e os créditos deste texto. A data da fonte é diferente da data de publicação no nosso site.
- Museu do Folclore recebe bordados do Vale do Jequitinhonha
Agência Brasil · Publicada em 2026-09-20T18:47:00-03:00 · Consultada em 2026-10-04T09:30:23.528519+00:00
Denunciar este relato — entre para acompanhar sua denúncia.
Continue a conversa
Comentários passam por moderação. Respeite as pessoas e não publique dados que identifiquem terceiros.
Entre ou crie sua conta para comentar.
Ainda não há comentários publicados.