Reciclagem no Rio: embalagens sem mercado custam horas de trabalho
EditorialUma embalagem descartada como reciclável pode chegar à triagem e continuar sem comprador. No estado do Rio de Janeiro, uma pesquisa divulgada em dezembro de 2025 mediu o impacto desses plásticos sobre o trabalho de catadores. O estudo analisou 20 organizações: dez na capital e dez nas regiões sul, centro-sul e Costa Verde.
O resultado central desloca a conversa do destino do lixo para o tempo de quem o separa. Em média, quase 16 horas por mês eram consumidas na triagem de plásticos que não geravam retorno financeiro. Os pesquisadores calcularam esse período como cerca de 9,4% do tempo mensal de trabalho, ou aproximadamente dois dias na rotina considerada.
A base descrita incluía jornadas médias de sete horas e meia por dia e 22 dias por mês. Esses valores ajudam a interpretar a proporção, mas não constituem a rotina exata de todas as pessoas de cada organização. O estudo reuniu situações de trabalho para estimar um impacto médio. Não acompanhou, na reportagem, uma catadora individual durante dois dias de perdas.
A maioria das pessoas identificadas na pesquisa era mulher, em torno de 68,6%. Também predominavam pessoas pardas e pretas. O perfil não permite inventar histórias familiares ou rendas pessoais, mas mostra quem estava mais presente nas organizações observadas. A perda de tempo recai sobre uma força de trabalho concreta, com composição social identificada.
Os pesquisadores também estimaram receitas que deixavam de ser obtidas com materiais que poderiam ser comercializados. Entre as organizações incluídas nesse cálculo, os valores mensais variavam de aproximadamente R$ 1,2 mil a R$ 3,8 mil. São estimativas de perda potencial das organizações, não salários retirados diretamente de cada trabalhador nem uma promessa de receita recuperável de imediato.
A explicação apresentada passa por mercado, logística e valorização econômica. Um material pode admitir reciclagem em termos técnicos e, ainda assim, terminar em aterro se não houver uma cadeia viável para recebê-lo. A reportagem distingue essa possibilidade daquilo que efetivamente encontra destino comercial. Separar um plástico não cria, sozinho, um comprador ou um processo acessível.
Na auditoria de 533 embalagens plásticas classificadas como rejeito, 82% tinham origem na indústria alimentícia. O dado liga o problema a objetos comuns na alimentação, em vez de restringi-lo a resíduos excepcionais. A amostra, contudo, não deve ser tratada como retrato estatístico de todas as embalagens descartadas em todo o país.
Filmes metalizados do tipo Bopp representaram cerca de 36,6% dos rejeitos plásticos analisados. A reportagem cita seu uso frequente em embalagens de biscoitos, doces, snacks e picolés. Em cerca de um terço das embalagens, faltava o código de identificação de reciclagem. São características que os pesquisadores registraram ao examinar o material, sem que o estudo autorize concluir que todo produto desses segmentos tenha a mesma condição.
Uma representante da instituição responsável defendia que catadores fossem remunerados pelo serviço ambiental prestado, além do peso do resíduo vendido. Sua argumentação relacionava a renda baixa de alguns materiais ao benefício coletivo de impedir que resíduos fossem perdidos no ambiente. Trata-se de uma proposta apresentada na reportagem, não de um sistema de pagamento já implementado.
Os pesquisadores apontaram ainda a necessidade de mudanças no desenho das embalagens, fortalecimento da logística reversa e responsabilização da indústria. A análise não transfere a questão inteira para o consumidor que separa o lixo em casa. O percurso descrito envolve produtos colocados no mercado, coleta municipal, triagem e compradores capazes de receber cada material.
O estudo havia sido realizado entre julho e dezembro de 2025. Na divulgação, não havia registro de que as perdas estimadas já tivessem sido eliminadas. A informação que ficou disponível era uma medida do trabalho invisível: horas de separação, ocupação de estrutura e materiais que, ao fim do processo, não geravam receita.
Nas organizações analisadas, a embalagem podia sair da mesa de triagem como rejeito. O tempo gasto para reconhecê-la e separá-la, porém, já tinha sido empregado. Era esse tempo, próximo de dois dias por mês na média calculada, que a pesquisa tornou visível.
Fontes consultadas
Confira a origem e os créditos deste texto. A data da fonte é diferente da data de publicação no nosso site.
- Plásticos não recicláveis geram perdas e sobrecarga a catadores no Rio
Agência Brasil · Publicada em 2025-12-22T20:33:00-03:00 · Consultada em 2026-10-04T09:28:10.509663+00:00
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