Deslocamento ao trabalho: sair às três e meia em Paciência
EditorialO despertador tocava às três da manhã em Paciência, na zona oeste do Rio de Janeiro. Às três e meia, um conferente de 30 anos saía de casa para chegar ao trabalho às seis, na Pavuna, na zona norte. Entre os dois bairros, a reportagem de maio de 2024 registra cerca de 35 quilômetros e uma combinação de caminhada, ônibus e van.
A primeira meia hora era feita a pé. Segundo o trabalhador, naquele horário não havia ônibus ou van disponíveis para começar o trajeto perto de casa. Caminhar não aparecia como uma opção escolhida por exercício ou preferência: era a etapa necessária até alcançar uma condução. O deslocamento já consumia tempo antes de ele entrar no primeiro veículo.
Depois vinham o ônibus e a van. A ida levava aproximadamente duas horas e meia. Na volta, o percurso podia chegar a três horas, por causa do trânsito e das paradas. Somados, os tempos relatados alcançavam cinco horas e meia em um dia mais demorado. Esse resultado é uma soma dos valores da entrevista, não uma medição de todas as jornadas do mês.
O conferente descreveu cansaço físico e mental. Na viagem de ida, conseguia cochilar com mais tranquilidade. No retorno, relatava calor, lotação e ônibus com ar-condicionado sem funcionar. Não é necessário inventar um dia de pane ou uma discussão no veículo: as condições que ele descreveu já mostram como duração e desconforto se acumulavam.
O tempo perdido no caminho disputava espaço com outras atividades. Ele fazia faculdade semipresencial de engenharia de produção e, em determinados períodos, preparava bolos para vender em casa. A reportagem não informa sua renda com confeitaria nem quantas disciplinas cursava. Registra que trabalho, estudo e uma atividade complementar precisavam caber nas horas restantes.
Ao pensar no que mudaria com um trajeto menor, o entrevistado mencionou a organização da faculdade, do trabalho e da academia. Ganhar uma ou duas horas faria diferença, em sua avaliação. Essa comparação dá dimensão concreta ao problema: uma melhora no transporte poderia aparecer como tempo recuperado na rotina, sem alterar o endereço da casa ou a profissão.
A secretaria municipal de transportes respondeu às queixas. Informou que fiscalizava conservação e climatização, citou aproximadamente 7,8 mil multas aplicadas no ano anterior e afirmou que 80% da frota era climatizada. Também declarou acompanhar a operação das linhas por GPS e revisar mensalmente o plano operacional. São informações prestadas pelo órgão, não confirmação de que o trajeto do conferente já tivesse sido corrigido.
Sobre a madrugada, a resposta descreveu metas de operação e possibilidade de alterar viagens conforme a demanda. A matéria não registra a criação de uma linha específica para aquele percurso. Assim, a versão oficial ajuda a compreender os mecanismos anunciados, mas não fornece um final em que o trabalhador passa a sair mais tarde de casa.
Um levantamento citado na mesma reportagem ouviu 2.019 pessoas economicamente ativas em municípios de pelo menos 250 mil habitantes. Entre elas, 36% disseram gastar mais de uma hora diária no trânsito e 55% relataram impacto na qualidade de vida. A pesquisa foi realizada em 2023; seu universo não representa automaticamente todos os trabalhadores de todas as cidades brasileiras.
Especialistas ouvidos pela fonte relacionaram o deslocamento prolongado à redução do descanso, do lazer e da concentração. Também apontaram que lotação e desconforto dificultam aproveitar a viagem para ler ou ouvir música. Essa análise conversa com o caso sem substituir sua particularidade: na entrevista, o trabalhador já chegava à rotina com horas consumidas pelo caminho.
O registro termina com o horário que organiza todos os demais. Para estar às seis no trabalho, era preciso sair às três e meia, depois de acordar às três. Em Paciência, a jornada começava muito antes de o conferente chegar à Pavuna.
Fontes consultadas
Confira a origem e os créditos deste texto. A data da fonte é diferente da data de publicação no nosso site.
- Em grandes cidades, deslocamento é drama diário para trabalhador
Agência Brasil · Publicada em 2024-05-01T11:31:00-03:00 · Consultada em 2026-10-04T09:28:11.339455+00:00
Denunciar este relato — entre para acompanhar sua denúncia.
Continue a conversa
Comentários passam por moderação. Respeite as pessoas e não publique dados que identifiquem terceiros.
Entre ou crie sua conta para comentar.
Ainda não há comentários publicados.