Catadores sob um viaduto: o trabalho ameaçado por um despejo
EditorialUma notificação municipal colocou em disputa o endereço de trabalho de uma cooperativa de catadores em Pinheiros, na zona oeste de São Paulo. A área tem 675 metros quadrados e fica sob um viaduto. A entidade atuava ali havia décadas quando recebeu, em 31 de março de 2026, a determinação para desocupar o espaço.
A reportagem publicada em abril apresenta duas questões que caminham juntas, mas não são idênticas. De um lado, está a situação administrativa do uso de uma área pública. De outro, a continuidade de um trabalho que recupera cerca de 100 toneladas de material reciclável por mês. Sair do endereço pode ser uma decisão escrita em um documento; manter esse volume de atividade exige condições físicas para operar.
A notificação se baseava em um auto de fiscalização expedido em 18 de março. Segundo a reportagem, o documento classificava a ocupação como ilegal. A permissão de uso havia sido revogada em 2023, com justificativas relacionadas à proteção do bem público e ao risco de incêndio. Essas são as razões descritas nos atos administrativos, não uma conclusão independente sobre todas as condições do local.
A cooperativa recebeu prazo de 15 dias para apresentar defesa e informou tê-la protocolado em 2 de abril. Sua presidente relatou que, depois da revogação de 2023, houve diálogo com a administração municipal e uma expectativa de encontrar outro lugar adequado. A matéria identifica essa expectativa como versão da cooperativa. A prefeitura foi procurada e não respondeu até o fechamento do texto.
Essa ausência de resposta delimita o que se pode contar. A fonte permite reconstruir as datas dos documentos e a posição pública dos trabalhadores. Não permite afirmar que a administração descumpriu uma promessa formal comprovada, nem que o risco mencionado já foi solucionado. A disputa permanecia sem um desfecho documentado naquela publicação.
Os números ajudam a entender o que estava em jogo. Havia 24 cooperados e aproximadamente 60 catadores autônomos ligados à atividade. A perda do espaço alcançaria, portanto, mais pessoas do que aquelas formalmente integrantes da cooperativa. A triagem, a guarda e a destinação dos materiais dependem de uma estrutura de trabalho que não cabe em uma simples mudança de endereço no cadastro.
Na entrevista, a presidente afirmou aceitar uma transferência, desde que fosse para um galpão com condições de continuidade e na mesma região. Segundo seu relato, uma alternativa sob outro viaduto era pequena demais para receber os materiais e equipamentos. O conflito apresentado pela fonte não era apenas permanecer ou sair: incluía o tamanho, o tipo e a localização do espaço de destino.
A localização importa porque o serviço descrito atende a região. A cooperativa se apresenta como parte da separação e da destinação dos resíduos de Pinheiros. Seu manifesto associa a reciclagem à geração de renda, à redução de material enviado a aterros e à organização de trabalhadores que enfrentaram marginalização. São argumentos públicos do grupo, reproduzidos na reportagem, sem uma auditoria de economia municipal apresentada no texto.
Entidades da categoria declararam apoio. A fonte descreve a cooperativa como a mais antiga de reciclagem de materiais em funcionamento no país e registra seu papel pioneiro na organização dos catadores. A dimensão histórica explica a mobilização, mas a necessidade imediata era material: havia pessoas, equipamentos e resíduos que precisavam de um lugar onde o trabalho pudesse seguir.
Na data da reportagem, os trabalhadores já tinham apresentado a defesa. Não há ali registro de uma transferência concluída, de uma ordem suspensa ou de um galpão entregue. Sob o viaduto, a trajetória de décadas havia chegado ao intervalo entre uma notificação recebida e uma resposta ainda aguardada.
Fontes consultadas
Confira a origem e os créditos deste texto. A data da fonte é diferente da data de publicação no nosso site.
- Cooperativa histórica de catadores recebe ordem de despejo em SP
Agência Brasil · Publicada em 2026-04-22T19:55:00-03:00 · Consultada em 2026-10-04T09:27:38.983990+00:00
Denunciar este relato — entre para acompanhar sua denúncia.
Continue a conversa
Comentários passam por moderação. Respeite as pessoas e não publique dados que identifiquem terceiros.
Entre ou crie sua conta para comentar.
Ainda não há comentários publicados.