Vida Real

Sobrevivente do Holocausto descobriu nazista na família da ex

RRedação · 11/10/20264 min de leitura
Editorial

Em fevereiro de 1967, um sobrevivente do Holocausto abriu o jornal durante o café da manhã e encontrou uma notícia que atingia sua vida pessoal. O homem preso no Brasil, identificado como antigo comandante de campos de extermínio nazistas, era o pai de uma mulher com quem ele havia namorado. Até então, não conhecia aquele passado. A descoberta reuniu, numa mesma página, a perseguição que marcara sua infância e um relacionamento que lembrava como uma experiência de proximidade.

O caso foi contado em uma reportagem do G1 Paraná publicada em fevereiro de 2025. O entrevistado tinha 86 anos e havia compartilhado suas memórias em Curitiba, numa solenidade pelos 80 anos da libertação de Auschwitz. Não se tratava de uma descoberta recente. A notícia de 1967 permanecera por décadas como um assunto sobre o qual ele tinha dificuldade de falar.

Nascido na Hungria em 1938, numa família judaica, perdeu o pai, assassinado pelos nazistas. A reportagem registra também a morte de mais de duzentos familiares em campos de extermínio. Ainda criança, ficou com a mãe viúva. Em 1949, os dois fugiram da Hungria para a Áustria e depois vieram para o Brasil, onde receberam a possibilidade de se estabelecer. Ao recordar esse percurso, ele destacou a acolhida brasileira numa época em que precisavam encontrar abrigo.

A aproximação com a futura namorada começou na escola, quando ele tinha cerca de quinze anos. O português ainda era uma dificuldade. Uma colega, vinda da Áustria, falava alemão. A língua compartilhada ofereceu um caminho para conversar, criar amizade e, depois, namorar. Para um adolescente cuja infância havia sido atravessada pela perseguição, aquele vínculo aparece em seu depoimento como uma experiência própria, menos dominada pelo passado da guerra.

O primeiro namoro terminou quando os caminhos dos dois se separaram. Anos depois, já de volta ao Brasil após estudar no exterior, ele reencontrou a antiga colega no trabalho. Tinha 26 anos. Ela estava separada, e os dois retomaram o relacionamento. Nessa fase, conheceu o pai dela e passou a frequentar a casa da família. Segundo seu depoimento, foi recebido de maneira cordial e chegou a considerar casamento.

O término veio antes da notícia da prisão. A namorada o procurou, chorou e disse que a relação não daria certo. Ele não compreendeu a decisão. Seguiu a vida, encontrou outra companheira e formou uma família. Quando leu o jornal em 1967, o relacionamento encerrado ganhou um contexto que não conhecera durante a convivência.

O pai da ex-namorada havia comandado os campos de extermínio de Sobibor e Treblinka. Foi preso no Brasil, deportado para a Alemanha Ocidental e condenado à prisão perpétua em 1970. A reportagem apresenta esses acontecimentos históricos separadamente das perguntas que permaneceram para o entrevistado. Ele formulou hipóteses sobre o término, mas elas não demonstram o motivo da decisão da mulher. O editorial não atribui a ela conhecimento ou intenção que a fonte não comprova.

Antes da pandemia, uma leitura o incentivou a escrever sobre a dor. A experiência se tornou um livro de 160 páginas. Mais tarde, depois de falar da história num podcast, foi procurado por um sobrinho da ex-namorada. Pediu, com a autorização da esposa, uma tentativa de reencontro. O contato não aconteceu: a antiga namorada não quis retomar a conversa, segundo a reportagem.

A memória também passou a ocupar um espaço público. Em 2023, ele participou de uma campanha contra o ódio e a intolerância, ao lado de um músico que relatava ter sofrido violência racista em Curitiba. No evento sobre a libertação de Auschwitz, os dois voltaram a se encontrar. Percorreram as salas do Museu do Holocausto, observando os objetos e as fotografias expostos ali.

Fontes consultadas

Confira a origem e os créditos deste texto. A data da fonte é diferente da data de publicação no nosso site.

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