Amizade

No Rio, um menino chama de pai o casal e o amigo da família

RRedação · 16/10/20264 min de leitura
Editorial

Na praia do Leme, no Rio de Janeiro, um homem contou ao marido que desejava ser pai. Um amigo antigo dos dois se envolveu na procura e nos trâmites para adoção. Cerca de dez anos depois daquela conversa, segundo reportagem de agosto de 2023, o menino adotado tinha oito anos e chamava os três homens de pai. O amigo, que era solteiro, continuava participando da criação.

Dois formavam um casal; o terceiro mantinha uma amizade de longa data. A participação dele não terminou quando os procedimentos de adoção foram concluídos. O homem que expressara o desejo de paternidade era produtor cultural e tinha 50 anos na entrevista. Seu marido trabalhava como contador. O amigo, estilista de 49 anos, morava em Cabo Frio, a cerca de duzentos quilômetros da capital fluminense. A distância exigia combinar ocasiões para os quatro estarem juntos. Os adultos procuravam organizar eventos e viagens, conforme suas possibilidades, para preservar a convivência.

O menino era negro. Os três procuravam conversar com ele sobre diversidade de cor da pele, gênero e religião de maneira natural. Quando alguém na escola comentou que ele era adotado, levou a pergunta para casa. Os pais disseram que ele lidava com o assunto com tranquilidade. Registra que a dúvida encontrou um espaço onde podia ser trazida. No momento da matéria, os responsáveis afirmavam que o menino não havia passado por episódio de racismo. A ausência de um caso relatado não afastava o assunto da criação. Eles buscavam apresentar a diversidade como parte da vida e equilibrar carinho com limites.

O amigo definiu a experiência como uma preocupação diária partilhada. Seu lugar aparecia no cuidado continuado, não apenas na ajuda inicial para realizar o sonho do casal. A mesma reportagem contou a experiência de outro pai, um sociólogo que morava em São Paulo com a esposa e o filho de sete anos. Pai e filho eram negros; a mãe, branca. Nesse caso, o menino havia sofrido um comentário racista sobre o cabelo na escola e chegado em casa sem entender.

O pai conversou com ele, e os responsáveis procuraram a escola para tratar do episódio. A diferença entre os dois casos é preservada pela matéria. Em São Paulo, a conversa se tornou necessária depois de uma ocorrência concreta. No Rio, os adultos descreviam uma preparação cotidiana. As duas famílias procuravam oferecer às crianças abertura para perguntar e falar sobre situações que ainda não compreendiam. O sociólogo também observava a representação dos personagens nos jogos de videogame que compartilhava com o filho.

A falta de figuras com pele e cabelo semelhantes aos deles podia virar assunto. Ele não pretendia transformar toda brincadeira numa aula formal. A conversa surgia na vivência, a partir do que o menino via e perguntava. A reportagem coloca esse exemplo ao lado da ida à escola, mostrando momentos distintos de acompanhamento. Em Brasília, um professor de educação física com uma filha de cinco anos contou que dividia as tarefas com a esposa, professora de história. Os dois conversavam com a menina sobre o dia e sobre ser negra.

O pai disse que não estabeleciam tarefas de homem e de mulher. O trabalho doméstico e o diálogo apareciam como práticas de uma paternidade participante, em vez de uma presença reservada a ocasiões especiais. A matéria apresentou ainda um advogado que adotara um menino e uma menina, ambos negros, com a esposa. Os pais eram brancos e frequentaram grupos de apoio antes da chegada dos filhos. Depois passaram a atuar como voluntários. O pai contou que a adoção mudou sua percepção sobre o racismo no país. Também procurava assuntos que ajudassem a conversar sobre filiação, incluindo histórias de personagens adotados no cinema.

Na convivência com os filhos, o advogado acompanhava futebol, bicicleta, piscina e ida à escola. Aprendeu pratos diferentes porque a filha gostava de cozinhar. Esses detalhes documentados mostram como o envolvimento se distribui entre atividades comuns. Na família do Rio, o compromisso tinha outra configuração, com um amigo fazendo parte da rede de cuidado. Em ambos os casos, a reportagem encontrou relações sustentadas depois do início da paternidade. O menino do Rio não precisava aguardar uma data comemorativa para contar com os adultos.

Eles continuavam combinando oportunidades para se reunir, apesar da distância de Cabo Frio. A história da amizade seguia dentro da história da adoção: o homem que ajudara um casal a procurar um filho permanecia entre as pessoas a quem esse filho chamava de pai.

Fontes consultadas

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