No Rio, um menino chama de pai o casal e o amigo da família
EditorialNa praia do Leme, no Rio de Janeiro, um homem contou ao marido que desejava ser pai. Um amigo antigo dos dois se envolveu na procura e nos trâmites para adoção. Cerca de dez anos depois daquela conversa, segundo reportagem de agosto de 2023, o menino adotado tinha oito anos e chamava os três homens de pai. O amigo, que era solteiro, continuava participando da criação.
Dois formavam um casal; o terceiro mantinha uma amizade de longa data. A participação dele não terminou quando os procedimentos de adoção foram concluídos. O homem que expressara o desejo de paternidade era produtor cultural e tinha 50 anos na entrevista. Seu marido trabalhava como contador. O amigo, estilista de 49 anos, morava em Cabo Frio, a cerca de duzentos quilômetros da capital fluminense. A distância exigia combinar ocasiões para os quatro estarem juntos. Os adultos procuravam organizar eventos e viagens, conforme suas possibilidades, para preservar a convivência.
O menino era negro. Os três procuravam conversar com ele sobre diversidade de cor da pele, gênero e religião de maneira natural. Quando alguém na escola comentou que ele era adotado, levou a pergunta para casa. Os pais disseram que ele lidava com o assunto com tranquilidade. Registra que a dúvida encontrou um espaço onde podia ser trazida. No momento da matéria, os responsáveis afirmavam que o menino não havia passado por episódio de racismo. A ausência de um caso relatado não afastava o assunto da criação. Eles buscavam apresentar a diversidade como parte da vida e equilibrar carinho com limites.
O amigo definiu a experiência como uma preocupação diária partilhada. Seu lugar aparecia no cuidado continuado, não apenas na ajuda inicial para realizar o sonho do casal. A mesma reportagem contou a experiência de outro pai, um sociólogo que morava em São Paulo com a esposa e o filho de sete anos. Pai e filho eram negros; a mãe, branca. Nesse caso, o menino havia sofrido um comentário racista sobre o cabelo na escola e chegado em casa sem entender.
O pai conversou com ele, e os responsáveis procuraram a escola para tratar do episódio. A diferença entre os dois casos é preservada pela matéria. Em São Paulo, a conversa se tornou necessária depois de uma ocorrência concreta. No Rio, os adultos descreviam uma preparação cotidiana. As duas famílias procuravam oferecer às crianças abertura para perguntar e falar sobre situações que ainda não compreendiam. O sociólogo também observava a representação dos personagens nos jogos de videogame que compartilhava com o filho.
A falta de figuras com pele e cabelo semelhantes aos deles podia virar assunto. Ele não pretendia transformar toda brincadeira numa aula formal. A conversa surgia na vivência, a partir do que o menino via e perguntava. A reportagem coloca esse exemplo ao lado da ida à escola, mostrando momentos distintos de acompanhamento. Em Brasília, um professor de educação física com uma filha de cinco anos contou que dividia as tarefas com a esposa, professora de história. Os dois conversavam com a menina sobre o dia e sobre ser negra.
O pai disse que não estabeleciam tarefas de homem e de mulher. O trabalho doméstico e o diálogo apareciam como práticas de uma paternidade participante, em vez de uma presença reservada a ocasiões especiais. A matéria apresentou ainda um advogado que adotara um menino e uma menina, ambos negros, com a esposa. Os pais eram brancos e frequentaram grupos de apoio antes da chegada dos filhos. Depois passaram a atuar como voluntários. O pai contou que a adoção mudou sua percepção sobre o racismo no país. Também procurava assuntos que ajudassem a conversar sobre filiação, incluindo histórias de personagens adotados no cinema.
Na convivência com os filhos, o advogado acompanhava futebol, bicicleta, piscina e ida à escola. Aprendeu pratos diferentes porque a filha gostava de cozinhar. Esses detalhes documentados mostram como o envolvimento se distribui entre atividades comuns. Na família do Rio, o compromisso tinha outra configuração, com um amigo fazendo parte da rede de cuidado. Em ambos os casos, a reportagem encontrou relações sustentadas depois do início da paternidade. O menino do Rio não precisava aguardar uma data comemorativa para contar com os adultos.
Eles continuavam combinando oportunidades para se reunir, apesar da distância de Cabo Frio. A história da amizade seguia dentro da história da adoção: o homem que ajudara um casal a procurar um filho permanecia entre as pessoas a quem esse filho chamava de pai.
Fontes consultadas
Confira a origem e os créditos deste texto. A data da fonte é diferente da data de publicação no nosso site.
- Pais que lutam: eles combatem racismo e se multiplicam em amor
Agência Brasil · Publicada em 2023-08-13T10:50:00-03:00 · Consultada em 2026-10-04T09:29:01.457862+00:00
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